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terça-feira, 1 de maio de 2007

Tico, o profeta pop


Dolores Orosco

Num dos shows do Detonautas, no interior do Paraná, a banda teve que sair da cidade na calada da noite e escoltada pela polícia. Resultado da declaração irônica que o vocalista Tico Santa Cruz havia feito no palco ao saber que o lugar era comandado por "coronéis".

- Galera, vou cantar uma música chamada Ladrão de gravata, que fala sobre políticos corruptos. Como sei que os governantes daqui são íntegros, ninguém deve se sentir ofendido - disparou o músico a uma platéia dominada por adolescentes que foram ao delírio.

Discursos inflamados capazes de chamar a atenção até do fã mais avoado do Detonautas, cabeleira e barba vastas (meio Antonio Conselheiro, meio Devendra Banhart), guias penduradas no pescoço e jeans surrado. Ingredientes como esses, combinados à liderança de atos contra a violência no Rio, estão alçando Tico Santa Cruz, 29 anos, ao posto de ídolo engajado, como há tempos o pop brasileiro não via.

- Tem gente dizendo que estou atrás de mídia para promover a banda. Se tivesse posto uma dançarina para rebolar nos shows, também seria criticado - conclui Tico, gesticulando exageradamente seus braços cobertos de tatuagens, a maioria delas símbolos religiosos (como São Jorge e Santa Bárbara) e místicos (o número 13 e o yin-yang).

Mídia, de fato, Tico conquistou. Seus atos públicos vêm ganhando espaço no noticiário não pelo número de manifestantes que reúne, mas pela forma nada convencional de pedir o fim da criminalidade. A última empreitada aconteceu há uma semana, na Assembléia Legislativa do Rio. O roqueiro surpreendeu os poucos deputados presentes ao assistir uma sessão de votos fantasiado de fantasma.

Numa das manifestações de que participou - daquelas em que todos vestem branco e pedem paz - pegou o microfone e começou a falar sobre a importância do voto consciente. Irritou uma das manifestantes, que lhe explicou que aquele não era um ato político, mas sim pela paz.

- Pedido de paz é uma coisa egoísta e hipócrita. Quem pede paz e mora na Zona Sul tem uma paz visível na cabeça, que é estar dentro da sua casa, com um bom plano de saúde e os filhos matriculados na escola particular. E o cara da favela? Quem não oferece condições para paz não pode cobrar nada- provoca.

Dos comentários que mais irritam o carioca nascido e criado em Copacabana - atualmente morador no Recreio, onde vive com a mulher Luciana e o filho Lucas, de 5 anos - é o de que sua militância começou após a morte do colega de banda, Rodrigo Netto, numa tentativa de assalto, no ano passado. Coisa que até mesmo os fãs negam, cheios de autoridade.

- É só olhar as músicas antigas do Detonautas! O Tico escreveu várias canções políticas antes da tragédia - defende a estudante Tâmera Vinhas, 18 anos.

Fã de carteirinha do Detonautas - banda formada há dez anos, através de um bate-papo virtual entre Tico, o baterista Fabinho Brasil, o guitarrista Renato Rocha, o DJ Cléston e pelo baixista Tchello - a garota sempre comparece às manifestações políticas do roqueiro, que informa o público de suas iniciativas por meio do blog Clube da insônia (www.clubedainsonia.blogspot.com).

- O Tico me deixou mais politizada. Todo mundo deveria ser mais cidadão - diz a fã, numa declaração reproduzida do ídolo.

Preocupado com o barulho do filho roqueiro, o engenheiro Luiz Eduardo não se cansa de avisar.

- Meu filho se expõe nessa sozinho. Peço que tome cuidado.

Mas o pai sabe que os alertas são em vão. Tico sempre foi um contestador. No colégio, não se cansava de questionar os professores, o que soava como rebeldia. No curso de Ciências Sociais da Uerj - que abandonou depois que o Detonautas ganhou as paradas - descobriu a paixão pela filosofia e ganhou inspiração extra nos livros de André Comte-Sponville, Nietzsche e Osho.

- Mas o que me inspira mesmo são as letras do Renato Russo e do Raul Seixas - garante o roqueiro.

Nem o futebol escapa de seu olhar crítico.

- Tico era Vasco como eu. Virou América porque discordava da política do Eurico Miranda - diz o pai, com visível desgosto.

O atual projeto do músico é levar suas manifestações para o teatro. Pretende juntar o grupo de artistas que conheceu nos saraus notívagos da livraria Letras e expressões, no Leblon, num espetáculo político.

- Será uma peça anárquica, com música, debates...

Tico tem consciência de que sua batalha política não trará resultados tão rápidos quanto as músicas do Detonautas. Mas já arranjou um jeito de curar a frustração recorrente.

- Faço terapia com uma especialista ótima. Conheci num programa de TV que participei com a banda.

Coisas de ídolo pop-engajado.

(Copiada do JB Onine)

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