Passa Todo Dia

sexta-feira, 27 de abril de 2007

O PESADELO DO POP - Por Arnaldo Saccomani


O DESGASTE DO PROCESSO

Em Salvador, acompanhei o processo até o último dia antes da entrada em cena dos jurados. O mais impressionante foi o segundo dia, em que a produção manda para casa os que não têm a habilidade musical nem o talento humorístico involuntário que justifiquem desperdício de tempo de gravação.
Nem tanto pelo número de eliminações (são muitos os aprovados; supõe-se que os responsáveis pelo programa acreditam bastante na máxima "Todo mundo tem potencial"), mas pelo sistema em si. Em um galpão com dez barracas de camping perfiladas, os candidatos têm pouco tempo para mostrar a que vieram, e o som vazando deixa no ar uma cacofonia de trinados, dós de peito e - me pareceu - gemidos de desaprovação. Porém o que mais se ouve são os constantes pedidos de "Mais um! Mais dois!" do pessoal que organiza a fila que leva ao abatedouro.

Embora eu não devesse estar ali (o galpão era um dos tais lugares vetados), a produção dá uma força: traz até mim um sujeito que, explicam, tem grandes chances de emplacar como figura, "para a sua matéria ficar legal". O cara se apresenta como Filé da Bahia, e pergunto por que se chama assim: "Não me chamo não, são as meninas na ladeira que me chamam...". Ah, vai precisar de muito carisma se continuar apelando para piadas velhas... Também falo com Cláudia Rizo, clone falhado da Beyoncé (gravou uma vinheta como se fosse a própria, cercada pelos seguranças do hotel): "Uso cabelo assim há quatro anos, ela é que me imita".

Todos sabemos que baiano é imune à insolação, mas a resistência do pessoal da fila me deixou pasmo. Espantavam o tédio da espera dançando a última manifestação musical da sexualidade tatibitati baiana, uma tal de "A Rocha" ("arrocha", entenderam?).

O refrão dizia algo como "piriripompom" e o pessoal se esfregava com gosto - deu vontade de sugerir que descolassem logo um quarto, de preferência com isolamento acústico.

No dia seguinte, o da eliminação, é que o bicho pega. Perto do hotel, vejo logo vários crachás de participante rasgados no chão. "Não me deixaram nem começar, só disse que ia cantar Ivete Sangalo e me cortaram", protestou Gisele da Silva Oliveira, 18 anos. "Mataram o meu sonho." "Uma menina cantou 'Parabéns pra Você' e foi aprovada pela produção", reclama o roqueiro Nino Rezende, que foi só dar uma força para a prima e a irmã que concorreram em Salvador. "Queriam me chamar porque me visto assim todo dark." Ele também estava dando uma força para amigos de Recife que chegaram à capital baiana num Fusca megadetonado com o logotipo de Ídolos que apelidei de "Anonimóvel". Todos foram eliminados.

Ainda em Salvador, de carona com a produção, vi os apresentadores gravando chamadas em pontos turísticos e aproveitei para conversar com eles. Lígia Mendes é a loirinha de beleza padrão-apresentadora que diz para a câmera textos decorados para vinhetas do programa, quase todos do naipe deste: "Salvador! Terra musical! Terra de João Gilberto, Caymmi, Caetano, Gilberto Gil..." O que Lígia, que ganhou o nome por causa da canção de Tom Jobim, curtiria em matéria de som? "Herbie Hancock, Dave Brubeck, Keith Jarret, Satie!" Tive de usar a minha mão livre (a outra estava com o gravador, Sherlock) para segurar o queixo.

"Mas tenho um repertório brega maior do que qualquer um dessa fila!", disse, como que para tentar consolar o entrevistador, que não poderá mais usar seus preconceitos na matéria.


(Parte da entrevista publicada na Revista Bizz - 212)


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